No Brasil, os fandoms se mobilizaram de forma inédita durante as eleições de 2026, influenciando a reeleição de Lula.
Grupos de fãs de artistas internacionais como Beyoncé e BTS utilizaram suas plataformas para apoiar o candidato após o primeiro turno.
O Laboratório de Pesquisa em Cultura Pop, Comunicação e Tecnologias (CULTPOP) acompanhou a dinâmica deste fenômeno por meio de um estudo aprofundado.
A pesquisa revelou como a interação digital desses grupos contribuiu para reverter os resultados das urnas e moldar o ativismo político no país.
Mobilização dos fandoms nas redes sociais
No dia 04 de outubro de 2026, após a apuração do primeiro turno das eleições presidenciais, os fandoms brasileiros, dedicados a artistas como Beyoncé, Taylor Swift, Olivia Rodrigo, Lady Gaga, Blackpink e BTS, fizeram um movimento inédito nas redes sociais. Eles disponibilizaram suas páginas para a campanha de reeleição de Lula, contribuindo significativamente para o resultado das urnas no segundo turno. As postagens não apenas apoiavam o candidato, mas também convocavam a comunidade para manifestações que defendiam a democracia.
Durante a campanha, ficou evidente uma trégua nas chamadas fanwars, disputas acirradas entre grupos rivais de fandoms, que se uniram em torno de um objetivo comum: a reeleição de Lula. Esse fenômeno foi objeto de estudo do Laboratório de Pesquisa em Cultura Pop, Comunicação e Tecnologias (CULTPOP) da Universidade Federal Fluminense (UFF), que analisou a influência dos fãs na política através das interações e mobilizações nas redes sociais.
A pesquisa do Laboratório CULTPOP
O CULTPOP, que se dedica a investigar as interações entre cultura pop e a comunicação digital desde sua criação em 2011, organizou uma força-tarefa para entender a mobilização dos fãs após o primeiro turno. Com mais de 20 pesquisadores envolvidos, a equipe dedicou entre seis e oito horas diárias para observar e analisar as movimentações ativistas dos fãs, coletando cerca de 6.500 posts de plataformas como X, Threads, TikTok e Instagram.
Além do conteúdo digital, o laboratório acompanhou duas manifestações de apoio a Lula em São Paulo e analisou conteúdos em YouTube, proporcionando um entendimento mais profundo da influência dos fandoms na mobilização política. Os resultados foram compilados em um relatório qualitativo que explora como essa nova forma de ativismo digital, baseada na cultura pop, conseguiu impactar uma eleição de forma sem precedentes no Brasil.
Ativismo digital e suas estratégias
O estudo destacou que, pela primeira vez na história do Brasil, houve um cruzamento entre ativismo político e as táticas de engajamento já utilizadas pelos fãs. O ativismo digital foi profundamente ‘gamificado’, onde cada tarefa cumprida gerava novas metas e prazos, mantendo os grupos motivados. Esse formato de mobilização, apesar de mais comumente associado à extrema-direita, foi aplicado nesta campanha por ativistas progressistas, demonstrando a perícia dos fãs na adaptação dessas estratégias.
Além das técnicas de engajamento, os fandoms também utilizaram uma linguagem própria, repleta de memes, gírias e expressões culturais que fomentaram um novo modo de expressão. Essa linguagem, em muitos casos, refletiu um novo ativismo progressista focado em ironia e sarcasmo, que contrastou com o discurso conciliatório da esquerda anteriormente predominante nas eleições.
A evolução do ativismo progressista
Outro aspecto importante identificado na pesquisa foi a centralidade das identidades culturais dos fãs de música pop, especialmente de ídolos como divas do pop e grupos de k-pop. Esses fãs foram protagonistas de uma mobilização que priorizou a inclusão das vozes de mulheres e pessoas LGBTQIAPN+, integrando um discurso mais amplo que se desvia das tradicionalmente aceitas na política.
A pesquisa também revelou o uso intenso de inteligência artificial generativa na criação de memes e conteúdos informativos, uma virada estratégica significativa, especialmente considerando que muitos ativistas progressistas eram reticentes quanto ao uso dessa tecnologia até então. As técnicas de comunicação dos fandoms, usadas para engajar e mobilizar, ajudaram a mudar a dinâmica da campanha eleitoral, mostrando que a cultura pop pode ter um papel transformador no cenário político.

Jornalista formada pela UNIP (2009) e formada em Rádio e TV pelo Centro Universitário Monte Serrat – UNIMONTE (2007).


