Iorubahia revela a influência do tabaco na cultura iorubá

A nova obra ‘Iorubahia – Escritos Raros sobre a Cultura Iorubá e as Relações entre Brasil e o Golfo do Benim’ do antropólogo Pierre Verger explora como o tabaco foi fundamental na chegada da cultura iorubá ao Brasil.

Escritos entre as décadas de 1960 e 1970, os ensaios inéditos em português reúnem a análise de Verger sobre as relações comerciais entre o Brasil e a África Ocidental, revelando como o tabaco serviu como moeda de troca no tráfico de pessoas escravizadas.

A obra foi organizada por Angela Lühning e é fruto da parceria entre a Fundação Pierre Verger e o Instituto Çarê, com o objetivo de promover a cultura brasileira e trazer à luz os escritos raros de Verger, que viveu entre Brasil e Nigéria.

A cultura iorubá e suas influências no Brasil

A cultura iorubá, um dos maiores grupos étnico-linguísticos da África Ocidental, teve um impacto profundo no Brasil desde os períodos de colonização e escravidão. O antropólogo franco-brasileiro Pierre Verger, em sua obra Iorubahia – Escritos Raros sobre a Cultura Iorubá e as Relações entre Brasil e o Golfo do Benim, explora essa influência, reunindo ensaios que revelam a presença duradoura dos iorubás na cultura brasileira.

Os textos, escritos entre as décadas de 1960 e 1970, abordam aspectos variados da cultura iorubá, como a religião, os costumes e a língua, demonstrando como essa cultura sobreviveu e se adaptou no novo contexto brasileiro. Verger destaca as contribuições dos iorubás na formação da identidade cultural brasileira, especialmente na Bahia, onde suas tradições religiosas e modos de vida se entrelaçaram com outras influências africanas e indígenas.

O papel do tabaco no tráfico negreiro

O tabaco, antes de ser uma preocupação de saúde pública, foi um dos principais produtos que facilitaram a chegada da cultura iorubá ao Brasil. O comércio de tabaco, especificamente o chamado refugo, era utilizado como moeda de troca para a obtenção de mão de obra escrava da África. Este tipo de tabaco, considerado de má qualidade na Europa, ganhou importância na Costa da Mina, onde se tornou um item valorizado pelos comerciantes africanos.

Essa prática de permuta foi crucial para a história do tráfico negreiro, uma vez que o refugo permitiu a aquisição de numerosos trabalhadores escravizados, muitos dos quais eram iorubás. Com isso, os efeitos culturais, sociais e econômicos dessa troca se espalharam, moldando a cultura e a sociedade brasileiras, especialmente nas áreas urbanas e rurais da Bahia.

A organização do livro e seu contexto histórico

Iorubahia é estruturado em três eixos principais que discutem as relações históricas entre o Brasil e o golfo do Benim. O primeiro eixo investiga as trocas comerciais e sociais; o segundo, os cultos aos orixás e as práticas de transe nas cerimônias religiosas; e o último trata da importância da transmissão oral de saberes na cultura iorubá.

Angela Lühning, organizadora do livro, enfatiza que os ensaios de Verger, além de rascunhos e apresentações acadêmicas, representam a primeira versão destes textos em português. A diversidade das temáticas abordadas retrata não apenas a influência direta da cultura iorubá, mas também o modo como essas tradições conseguiram persistir e se reinventar ao longo do tempo.

Relações culturais entre Brasil e o Golfo do Benim

A obra de Verger mostra claramente que as relações culturais entre o Brasil e o golfo do Benim vão além do comércio de escravizados. A cultura iorubá trouxe consigo uma rica herança que se manifestou em várias áreas, incluindo culinária, música, dança e religião. Essas interações foram fundamentais para a formação da identidade cultural brasileira, criando um rico mosaico que é celebrado até os dias de hoje.

A diversidade dos textos e sua importância

Os textos contidos em Iorubahia são de grande valor, pois não só documentam as experiências e vivências do povo iorubá, mas também oferecem uma visibilidade às tradições que, embora muitas vezes ignoradas, são essenciais para a compreensão da formação da sociedade brasileira contemporânea. Verger apresenta os iorubás como agentes de sua própria história, contribuindo de maneira ativa para a riqueza cultural do Brasil.